Todos os canais mostrando as enchentes, Marginal interditada e muitos sem acesso as ruas e rodovias que os levariam a qualquer lugar que seja, trabalho, para casa, mas hoje não, hoje foi o dia determinado para que o tempo se fizesse imperativo e nos condenasse ao quase exílio.
A natureza foi mais forte do que o nosso direito de ir e vir.
A natureza foi mais forte do que o nosso direito de ir e vir.
Mas enquanto não fomos a lugar nenhum, uma coisa fica clara, o exílio não é tão ruim com comida na geladeira, com água e luz, enfim, tudo funcionando perfeitamente, aí você encara esse dia como um merecido descanso para a mente cheia de pensamentos que precisam realmente de um tempo para serem postos em seus devidos lugares, onde os finais vão para o baú do fim, as contas para o baú de não as pagaremos em dia e as angústias se colocando em ordem e assim, ficar preso em casa em uma segunda feira chuvosa, não me soa tão ruim.
Mas eu, que não paro quieta, desci para comprar meu cigarro.
Eu já havia tentado sair duas vezes, uma para ir trabalhar e outra para tentar desafiar o alagamento, porque eu sou muito Dora a Aventureira, pois oras bolas não fumo desde ontem e eu daria conta de uma aguinha a toa. Não deu nessas duas vezes, mas na terceira vez daria, afinal de contas fiquei cuidando do movimento das águas do alto de minha torre e do mesmo jeito que vi a água quase tóxica alagando toda a comunidade ao lado de casa, a vi ir embora, pronto, resolvi me arriscar e se houvesse como entrar eu iria, porque eu sou dessas, das que se arriscam mesmo.
Eu já havia tentado sair duas vezes, uma para ir trabalhar e outra para tentar desafiar o alagamento, porque eu sou muito Dora a Aventureira, pois oras bolas não fumo desde ontem e eu daria conta de uma aguinha a toa. Não deu nessas duas vezes, mas na terceira vez daria, afinal de contas fiquei cuidando do movimento das águas do alto de minha torre e do mesmo jeito que vi a água quase tóxica alagando toda a comunidade ao lado de casa, a vi ir embora, pronto, resolvi me arriscar e se houvesse como entrar eu iria, porque eu sou dessas, das que se arriscam mesmo.
Fui e no meio de uma água suja, colchões em caçambas de lixo misturados com roupas que foram jogadas fora, me perdi em meus pensamentos, cadê a ajuda na limpeza? Um córrego alagou várias ruas e não existe um serviço desse tipo? Tô viajando do alto de minha torre?
Voltando ao assunto, passei pela beira deste córrego e fiquei pensando nas pessoas de todas as travessas que sofrem com os mandos e desmandos da natureza e que não puderam tirar o dia de folga, porque estavam usando suas vassouras e rodos para tentar tirar a água imunda de seu caminho.
Helicópteros voando desesperadamente para avaliar a situação da cidade que nunca para e olhem só que ironia, hoje parou, e esse poder imenso de paralisação deveria servir para que nossos governantes entendessem que existem forças maiores do que o poder de suas canetas Mont Blanc.
Situação ruim vista lá de cima, mas em terra as coisas estavam bem mais alarmantes.
Situação ruim vista lá de cima, mas em terra as coisas estavam bem mais alarmantes.
Andando e me misturando, mas não muito bem, pois fui interceptada por uma moradora chamada Bruna que fez questão que eu visse a situação deles, não sei bem porque ela fez isso, mas fui e acabei entrando na casa da Sra. Rose.
Com o alagamento, sua geladeira pifou, a cama estava em cima do sofá e a água estava no tornozelo. Não sei como ela vai dormir hoje, mas esse nem é o maior problema que ela enfrenta, pois o câncer que ela tem no colo do útero é o que o mais a preocupa. Sem cabelos, sem saúde e só com 4 paredes.
Provavelmente a D. Rose não saiba do corujão da saúde que atende pessoas com câncer e que poderia dar a ela pelo menos uma condição melhor de saúde, ela não sabe disso e mais um monte de coisas que a poderiam beneficiar, porque pessoas que vivem nesta condição não estão conectadas com o mundo real, ele não chega até lá. É como se cada rua carente fosse um microcosmos onde existem pessoas conectadas em seus dramas, as São Paulo, dentro de São Paulo, com suas realidades, suas agruras e independência, porque o Estado não age dentro desses lugares.
A defesa civil apareceu na comunidade sim, apareceu quando o córrego subiu ao ponto de matar um neném e uma idosa há alguns anos atrás e veio junto com todos os canais de comunicação que acompanharam o desmonte das casas mais simples e por falar nisso, sabe-se lá para onde foram esses antigos moradores. Já os que tem casa cimentada e que moram nas vielas emendadas por ruas de acesso minúsculas foram deixados lá, com suas histórias, suas doenças, suas crianças, seus bichinhos de estimação...
Uma cidade tão grande com tantas travessas e vielas e com histórias tão parecidas como as acima e ninguém para lutar por eles e o pior de tudo é que os políticos aparecem e validam essa situação, levando energia elétrica, pavimentando porcamente as ruas e prometendo o assorear o córrego que já tirou vidas mas que não é mais capa de jornal porque notícias piores já aconteceram, mas o que importa mesmo é tirar da frente essa gente que incomoda porque sempre perde.
Povo que sempre reclama, porque não tem nada.
Na vida das pessoas das travessa e vielas e ruas sem nome que ficam nos cantinhos escondidinhos, bem no meio dos centros urbanos essa foi só mais uma tragédia.
Amanhã, é levantar e recolher o que der para ser recolhido, catar os pedaços de uma vida todinha quebrada.
D. Rose não sabe que o presidente é um fanfarrão inconsequente, não sabe que o governo dele permitiu a pesca em locais de preservação, não sabe que o Brasil estava no Oscar por um filme que mostrava a cara do governo anterior e sua derrota, não sabe que existem empresários que consideram o ministro Weintraub uma boa aposta do governo, que a Regina Duarte não foi apoiada pelos seus colegas artistas, que o Lula vai receber salário do seu partido e não sabe que o filme do Coringa fala de pessoas que chegam ao limite e que no final das contas nem tem muito a ver com heróis e mocinhos, mas sim, com o que podemos nos tornar quando temos toda a nossa vida roubada de nós. Ah, ela nem liga que o Joaquin Phoenix ganhou o Oscar por esse papel, na verdade ela nem deve saber que é preciso fazer cocô dia sim dia não, essas informações não tem relevância em um mundo onde se precisa pensar em como tirar a água de esgoto de dentro de casa.
D. Rose tem o que comer, me ofereceu o seu almoço dizendo que era limpinho, frase que me deixou muito triste, pois eu nunca nem em um milhão de anos pensaria o contrário.
D. Rose abriu uma cerveja, quente por sinal e me perguntou se eu queria ver os documentos dela, tentando afirmar acho que inconscientemente que ela era uma pessoa.
Sim D. Rose, somos todos cidadãos de um mesmo lugar, com oportunidades infinitamente diferentes.
Eu nunca poderia me colocar no lugar de nenhuma daquelas pessoas porque eu nunca passei dificuldades extremas de pobreza e quando caí e fiquei quase neste limiar, recebi ajuda, formou-se uma corrente forte de pessoas que fizeram eu levantar e sair de dentro do meu poço sem fundo, mas quem vai fazer isso por ela?
Quem vai olhar e cuidar deles?
Quando daremos a eles a visibilidade que eles merecem?
Como uma cidade tão rica e tão desenvolvida, pode se dar ao luxo de excluir a população de baixa renda desse jeito?
Pensando em dinheiro mesmo, o poder público ganharia muito dinheiro investindo no desenvolvimento das comunidades, mobilizando e contratando os próprios moradores para cuidar de seus lugares, muito são desempregados, creio que a maioria, qual o impedimento?
Ah, mas a área é comandada por traficantes...
Ah, mas eles não querem trabalhar...
Ah, mas eles estão lá porque querem...
Ah, mas não há uma solução a curto prazo.
Quando o governo resolve realocar valores, eles conseguem, mas qual vai ser o governo com culhão de colocar valores em locais invisíveis?
Sabemos que cuidar de pobres não dá votos, o que dá voto é comer pastel na feira em campanha, beijar criancinha remelenta e incitar os desejos mais profundos que o momento pede, se o povo está com ódio da esquerda, surfar nesta onda e se for ao contrário, a mesma coisa.
Tem mais, ninguém quer falar disso neste momento, está chegando o Carnaval e com isso mais um grande recesso nas áreas privadas e principalmente públicas, a festa do povo não pode ser abalada por causos de enchentes, né meu povo.
Aonde estão os vereadores nesta hora? Espero do fundo do meu coração que estejam ilhados, que sejam todos fumantes e estejam sem cigarro, essa é a minha praga de hoje.
Quando a natureza exerce sua força, não há o que possamos fazer a não ser esperar ela se acalmar e analisar os danos, mas quando já existem partes danificadas, uma chuva forte termina de destruir o pouco de estrutura que se tem.
Mais helicópteros passando e eu vou ficar aqui, indagando sem parar, qual o propósito de tudo isso?
Porque não conseguimos dar um grito uníssono de BASTA?
Poxa, somos cidadãos e merecemos respeito, merecemos cuidados básicos, mas só a partir da classe média e olhe lá?
Deve ser tão bom viver em um país desenvolvido e escrever sobre coisas relevantes para o futuro da humanidade, lutar pelo meio ambiente, fazer essas coisas de quem já deu um passo a frente e que carrega junto de si uma comunidade de valores sólidos.
Deve ser tão bom poder ter chances iguais e não as que achamos serem iguais.
Deve ser tão bom poder olhar uma chuva forte e pensar que quando ela passar, ela só deixará um lindo arco íris no céu que incitará lindos poemas e declarações de amor e nada mais.
Com o alagamento, sua geladeira pifou, a cama estava em cima do sofá e a água estava no tornozelo. Não sei como ela vai dormir hoje, mas esse nem é o maior problema que ela enfrenta, pois o câncer que ela tem no colo do útero é o que o mais a preocupa. Sem cabelos, sem saúde e só com 4 paredes.
Provavelmente a D. Rose não saiba do corujão da saúde que atende pessoas com câncer e que poderia dar a ela pelo menos uma condição melhor de saúde, ela não sabe disso e mais um monte de coisas que a poderiam beneficiar, porque pessoas que vivem nesta condição não estão conectadas com o mundo real, ele não chega até lá. É como se cada rua carente fosse um microcosmos onde existem pessoas conectadas em seus dramas, as São Paulo, dentro de São Paulo, com suas realidades, suas agruras e independência, porque o Estado não age dentro desses lugares.
A defesa civil apareceu na comunidade sim, apareceu quando o córrego subiu ao ponto de matar um neném e uma idosa há alguns anos atrás e veio junto com todos os canais de comunicação que acompanharam o desmonte das casas mais simples e por falar nisso, sabe-se lá para onde foram esses antigos moradores. Já os que tem casa cimentada e que moram nas vielas emendadas por ruas de acesso minúsculas foram deixados lá, com suas histórias, suas doenças, suas crianças, seus bichinhos de estimação...
Uma cidade tão grande com tantas travessas e vielas e com histórias tão parecidas como as acima e ninguém para lutar por eles e o pior de tudo é que os políticos aparecem e validam essa situação, levando energia elétrica, pavimentando porcamente as ruas e prometendo o assorear o córrego que já tirou vidas mas que não é mais capa de jornal porque notícias piores já aconteceram, mas o que importa mesmo é tirar da frente essa gente que incomoda porque sempre perde.
Povo que sempre reclama, porque não tem nada.
Na vida das pessoas das travessa e vielas e ruas sem nome que ficam nos cantinhos escondidinhos, bem no meio dos centros urbanos essa foi só mais uma tragédia.
Amanhã, é levantar e recolher o que der para ser recolhido, catar os pedaços de uma vida todinha quebrada.
D. Rose não sabe que o presidente é um fanfarrão inconsequente, não sabe que o governo dele permitiu a pesca em locais de preservação, não sabe que o Brasil estava no Oscar por um filme que mostrava a cara do governo anterior e sua derrota, não sabe que existem empresários que consideram o ministro Weintraub uma boa aposta do governo, que a Regina Duarte não foi apoiada pelos seus colegas artistas, que o Lula vai receber salário do seu partido e não sabe que o filme do Coringa fala de pessoas que chegam ao limite e que no final das contas nem tem muito a ver com heróis e mocinhos, mas sim, com o que podemos nos tornar quando temos toda a nossa vida roubada de nós. Ah, ela nem liga que o Joaquin Phoenix ganhou o Oscar por esse papel, na verdade ela nem deve saber que é preciso fazer cocô dia sim dia não, essas informações não tem relevância em um mundo onde se precisa pensar em como tirar a água de esgoto de dentro de casa.
D. Rose tem o que comer, me ofereceu o seu almoço dizendo que era limpinho, frase que me deixou muito triste, pois eu nunca nem em um milhão de anos pensaria o contrário.
D. Rose abriu uma cerveja, quente por sinal e me perguntou se eu queria ver os documentos dela, tentando afirmar acho que inconscientemente que ela era uma pessoa.
Sim D. Rose, somos todos cidadãos de um mesmo lugar, com oportunidades infinitamente diferentes.
Eu nunca poderia me colocar no lugar de nenhuma daquelas pessoas porque eu nunca passei dificuldades extremas de pobreza e quando caí e fiquei quase neste limiar, recebi ajuda, formou-se uma corrente forte de pessoas que fizeram eu levantar e sair de dentro do meu poço sem fundo, mas quem vai fazer isso por ela?
Quem vai olhar e cuidar deles?
Quando daremos a eles a visibilidade que eles merecem?
Como uma cidade tão rica e tão desenvolvida, pode se dar ao luxo de excluir a população de baixa renda desse jeito?
Pensando em dinheiro mesmo, o poder público ganharia muito dinheiro investindo no desenvolvimento das comunidades, mobilizando e contratando os próprios moradores para cuidar de seus lugares, muito são desempregados, creio que a maioria, qual o impedimento?
Ah, mas a área é comandada por traficantes...
Ah, mas eles não querem trabalhar...
Ah, mas eles estão lá porque querem...
Ah, mas não há uma solução a curto prazo.
Quando o governo resolve realocar valores, eles conseguem, mas qual vai ser o governo com culhão de colocar valores em locais invisíveis?
Sabemos que cuidar de pobres não dá votos, o que dá voto é comer pastel na feira em campanha, beijar criancinha remelenta e incitar os desejos mais profundos que o momento pede, se o povo está com ódio da esquerda, surfar nesta onda e se for ao contrário, a mesma coisa.
Tem mais, ninguém quer falar disso neste momento, está chegando o Carnaval e com isso mais um grande recesso nas áreas privadas e principalmente públicas, a festa do povo não pode ser abalada por causos de enchentes, né meu povo.
Aonde estão os vereadores nesta hora? Espero do fundo do meu coração que estejam ilhados, que sejam todos fumantes e estejam sem cigarro, essa é a minha praga de hoje.
Quando a natureza exerce sua força, não há o que possamos fazer a não ser esperar ela se acalmar e analisar os danos, mas quando já existem partes danificadas, uma chuva forte termina de destruir o pouco de estrutura que se tem.
Mais helicópteros passando e eu vou ficar aqui, indagando sem parar, qual o propósito de tudo isso?
Porque não conseguimos dar um grito uníssono de BASTA?
Poxa, somos cidadãos e merecemos respeito, merecemos cuidados básicos, mas só a partir da classe média e olhe lá?
Deve ser tão bom viver em um país desenvolvido e escrever sobre coisas relevantes para o futuro da humanidade, lutar pelo meio ambiente, fazer essas coisas de quem já deu um passo a frente e que carrega junto de si uma comunidade de valores sólidos.
Deve ser tão bom poder ter chances iguais e não as que achamos serem iguais.
Deve ser tão bom poder olhar uma chuva forte e pensar que quando ela passar, ela só deixará um lindo arco íris no céu que incitará lindos poemas e declarações de amor e nada mais.
Fiquei ilhada hoje e acabei tendo uma experiência forte, vi de perto o que é a carência, não dá para evitar o sentimento de indignação...
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