Eu não tive filhos, acho que é lei divina pois tenho certeza que eu propagaria minha desestrutura para um novo ser, mas claro que me passou na cabeça ser mamãe de um nenêzinho lindo, ver ele andar pela primeira vez, falar, crescer, sei lá pra onde foi essa vontade, mas passou e eu vivo bem.
Agora eu sinto, mesmo não sendo mãe e não sabendo da imensidão desse amor grandioso, eu sinto mesmo quando eu vejo mães, pais chorando a morte de seus filhos, creio que seja o pesadelo mais real, mais doloroso que deve existir para eles e estou falando de crianças doentes ou que sofrem algum acidente, coisas que muitas vezes não podem ser evitadas, mas ter um filho, criá-lo e ele morrer com um tiro nas costas de “bala perdida”?
Taí, essa seria a realidade em zona de guerra, porque a guerra não poupa ninguém, a máxima é a aniquilação total de seu inimigo e matando crianças, você impede que eles cresçam e futuramente virem-se contra a sua ideologia e te cace como você caçou os dele, pois bem, no Rio de Janeiro não temos uma guerra declarada então qual é o nome que damos a esse assassinato? Crime cometido por conta de Estado de sítio, ou pura e simples contenção da violência?
Ahhh, mas policial morre também, sim, morre, mas existe uma diferença entre essa afirmação e o relato acima, porque o policial é TREINADO para enfrentar o crime e SABE de todos os prós e os contras de sua profissão, é uma merda, é, ninguém quer que nossos policiais morram em vão, mas o que está faltando para essas mortes pararem de ambos os lados?
Se os policiais tiverem carta branca para atirar, já vimos que não da bom, excluir a população das comunidades e deixá-las se matarem também não da certo, subir no helicóptero e atirar mirando na cabeça das pessoas? Essas seriam as opções mais corretas?
Se você responder que sim para as perguntas acima eu te replico com a seguinte pergunta, a justiça tem a sua balança, como você faria se a sua situação de vida te colocasse exatamente aonde essas pessoas renegadas por nós estão?
E outra, o Estado está muito preocupado também com a sua maconha, hoje se cogita uma super repressão, onde você a encontraria?
Outra situação que você pode se identificar, você não seria a Marielle Franco, mas vamos supor que você fosse o seu motorista, você precisa trabalhar e nós pobres não escolhemos trabalho, então você é o Anderson e morre, juntamente com ela em uma emboscada, com balas que nem eram para você, você seria só o efeito colateral dessa ação, efeito esse, que transformaria a vida de sua família para sempre e que ficaria impune (pelo menos até o presente momento), qual seria a desculpa para isso? Vejam, não estou mais falando de pessoas menos favorecidas, estou falando de trabalhador como vocês, sabe, os motoristas de Uber assassinados, mulheres mortas por serem mulheres, são lugares comuns para vocês me entenderem?
Se ainda não, então eu não sei mais o que falar, porque enquanto negamos a realidade que nos cerca, hora ou outra, sem querermos ou pedirmos, ela entra em nossa vida e vira nossa realidade, pois o Estado não garante a nossa segurança e sabemos que muito provavelmente não teremos justiça, enquanto isso as crianças que sobreviverem a essa guerra velada, serão as que caçarão a todos os que acabaram com sua vida e o ciclo continua, ódio dirigido pelo ódio, assim como em uma guerra verdadeira.
Que nunca mais tenhamos Ágathas, Kauãs, Kauês e outras crianças privadas de sua vida porque o governo não sabe lidar com seus problemas, rezemos por todos os filhos que temos e pelos que não temos, amém!