domingo, 29 de maio de 2016

Capítulo 1 - Almoços de Domingo

Gastrite nervosa já era uma condição minha aos 18 anos, lembro perfeitamente o dia que eu fiz minha primeira endoscopia e o pânico que senti quando acordei do efeito dos tranquilizantes, chorando e implorando para a enfermeira não fazer o procedimento, sendo que eu já o havia feito e já estava na sala de recuperação...
Sempre foi assim, pânico puro de algo que precisava acontecer de qualquer maneira e para curar a dor eu teria que descobrir a doença e nem sempre é agradável passar por isso sozinha, mais como na maioria das coisas que acontece em nossa vida, as passamos sozinhas, mas o grande coringa da história é que não era dor só no estômago, sempre foi mais dor de alma, daquela que os aparelhos não conseguem localizar, sempre foi assim, dores e mais dores, algumas físicas mas a maioria não.
Almoços de domingo... Não, minha dor de estômago não se deu porque eu comia demais, muito pelo contrário, comida nessa época não era um problema, era só fonte de energia, não me preocupava em engordar, nem em emagrecer, engraçado pensar nisso hoje, porque esse nunca foi um de meu problemas, todo o resto sim...
Voltando ao dia em si, domingo pra mim era o dia que a tia inconveniente chegava em casa as 11:00 hs da manhã para senta, comer, beber, atormentar, obrigar alguém a lhe dar carona e deixar o rastro de sua falta de educação para trás.
Era o dia que meu pai se encontrava com seus amigos na padaria na parte da manhã e só aparecia em casa quase as duas da tarde, visivelmente embriagado, destratando a todos, reclamando da comida, da disposição dos pratos, da quantidade de refrigerante bebida, da maneira que se comia, uma hora de atormentação pura.
Era o dia que minha mãe ficava em casa, bebia, se cortava, mascava todos os chicletes que ela achava largados em casa, formando uma grande bola que não cabia na boca, mas que era o que ela queria fazer e isso, de uma maneira bem disfuncional, era bom para ela.
Era o dia que meu irmão e eu ficávamos reféns de todas as coisas psicologicamente incorretas disponíveis a essas pessoas e eles usavam de seus poderes patronos para exercerem suas vontades a qualquer custo.
Me dói escrever essas coisas, parece que eu sou mau agradecida e durante anos, odiei almoço de domingo calada, pensando nesse meu mau agradecimento e acabei engolindo as comidas feitas, sem nunca perceber que estava engolindo ares de falta de responsabilidade, omissão, raivas, preconceitos... Engoli tantas coisas além de comida que meu estômago começou a reagir, se eu não reagia ele decidiu que ele se pronunciaria.
Houve o grito estomacal, recebi tratamento físico e melhorei dessa dor, mas os almoços de domingo continuaram....
Quando eu entro dentro de meu baú de memórias, recordo que todas as reuniões em casa foram de alguma forma manchadas com gritos, xingamentos, maus tratos e sarcasmo. De novo, será que eu sou mau agradecida?
Sempre ganhei os melhores presentes, as melhores festas, fui para os melhores lugares, conheci gente famosa, viajei e tive muita sorte de crescer com meus primos que moram longe, estudei em boas escolas e confesso fui feliz na maioria dos momentos, mas eu não fui ouvida, nem respeitada e nem desenvolvi direito a maneira de me relacionar com as pessoas.
Hoje em dia todos falam que eu sou difícil, que é difícil conversar comigo, de me fazer sentir empatia pelos problemas dos outros, que eu sou cega em minhas convicções, que eu sou dura chegando em alguns momentos a ser até má, mas aí vem a contradição, eu não sou uma má pessoa, eu realmente não sei me relacionar com os outros.
Não sei aceitar críticas, acho que todas são negativas e me deixam desconfortáveis, como se eu precisasse ser constantemente reafirmada da minha condição de ser humano coerente.
Não sei lidar com falsidades e bato de frente com erros, os meus e os dos outros, não tenho vontade de dar mais do que um minuto a pessoas que não me escutam. Quando erro eu volto atrás, peço desculpas e tento desesperadamente não fazer de novo.
Caí em desgraça em vários relacionamentos, em vários empregos, em vários círculos porque falo o que penso e minha diarreia verbal aparece toda vez que eu me coloco como a certa da situação ou quando me sinto diminuída pelo outro e posso ficar aqui dando exemplos e mais exemplos de como me saboto em todos os campos de uma maneira sistemática, como se eu arranjasse desculpas para eu ser deixada de lado e depois falar para todo mundo como eu sou uma coitada. Deve ser a única maneira que eu sei de me sentir importante, pois não conheço outra maneira.
Culpa dos almoços de domingo? Provavelmente...
Mas hoje é domingo e depois de anos e de todos acharem que isso faz parte do meu passado, mais uma vez o almoço foi destruído pelas críticas, pelos gritos e pelo não reconhecimento no esforço do outro em fazer algo bom e deixar o ambiente bom para que todos pelo menos uma vez na vida tenham um almoço de domingo sossegado. Creio que não o terei, deve ser meio que carma, tipo jogamos as coisas, não as entregamos, gritamos as palavras e não as falamos, odiamos as coisas e esquecemos das pessoas...
Não almocei hoje, me enchi daquelas coisas ruins que disse acima e creio que meu estômago provavelmente sinta a repercussão dessa revolta isolada e eu tenha que ir ao médico para tratar do físico mais uma vez, mas com a destruição do psicológico a todo vapor, creio que meu estômago uma hora pare de gritar e sucumba aos males perpetuados a ele.
Hoje foi dia de lasanha.
Bom almoço a todos

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