quarta-feira, 3 de julho de 2019

Feliz Aniversário Dona Shirley!

E hoje é o aniversário da Shirley e a pergunta é, como comemoramos o aniversário de quem já se foi? Fiz essa pergunta para o meu pai e ele disse para eu acender uma vela para ela, coisa que ela adorava fazer todos os dias então, seria uma boa homenagem, acendi uma vela e foi muito estranho fazer isso para ela não com ela, mas olhando pelo lado positivo, velas se acendem nos aniversários então tá tudo certo.
Mas por pior que tenham sido esses meses sem ela, hoje em dia eu choro só por dentro e não é só porque as lágrimas não caem mais dos meus olhos não significa que sarou, parece que o desespero está dormente guardado dentro do vazio da falta dela.
E no final, eu acabo fazendo o que todo mundo faz, trago de volta as coisas boas pois na verdade eu quero esquecer o que foi ruim pois acompanhei o ruim todinho muito de perto e surgem as perguntas do tipo, daria para ter feito algo a mais, então escolho lembrar de coisas diferentes e muito peculiares de nossa relação, que me trazem um sorriso de cantinho de boca, manja...
Tudo acontecia no tempo dela e quando ela se abria ela adorava contar histórias do seu passado e eu sempre com o demônio no corpo, provocava com zilhões de perguntas sobre ela porque eu queria saber de tudo, das sensações, das alegrias, dos desesperos, era minha maneira de me aproximar, eu queria saber sobre minha vó, meu avô, sobre meus tios, namorados, a vinda dela de Tupã para São Paulo casada com um músico negro, como a família dela tinha reagido a isso e mano, descobri milhares de detalhes da hora que me dão a certeza de que sou muito parecida com ela, aquela coisa meiga e desarmada quando em seu lugar de conforto, falando do que gosta de se lembrar, das conquistas de uma vida, de sua vida.
A Shirley era diferente, por exemplo, ela era a pessoa que assistia todas as missas que passavam no canal das missa e no domingo o padre dava vários Vivas, Viva Nossa Senhora e ela gritava do seu quarto, VIVA, viva Jesus Cristo e lá ia ela, VIVA e eu achava isso tão da hora porque ela clamava com uma fé danada, ela aumentava o som para dar viva para os santos tudo e eu para atormentar, chegava no quarto dela e gritava, Viva o PEQUENO (nosso cachorro) e ela VIVA, viva o CHIQUINHO (nosso outro cachorro) e ela VIVA, humor meio negro e meio confuso, mas ela ria com isso e logo depois e me dizia ÓÓÓ menina isso é pecado e eu a rebatia com um Viva a Ana Carolina e ela VIVA e assim ia...
Outra coisa que me recordo agora é que ela tossia e ajeitava a blusa,  tipo um tique que é assim, você sente que vai tossir, aí você leva a mão até a boca, tosse e depois ajeita a blusa bem na parte da barriguinha, como se houvesse alguma relação entre uma coisa e outra e eu sei bem como é diferente e estranho pois isso é meio que uma herança ou genética ou induzida... Tenho o mesmo tique e é nosso, como é nosso o laço da maternidade que ela tanto quis... Minha mãe querida!!!
Bom mãe, parabéns, eu bem que gostaria que você estivesse aqui para eu poder te abraçar mais uma vez, mas saiba que eu te abraço e te beijo e te ajudo e te abraço de novo toda vez que eu pisco, ouço sua voz e me lembro do seu filhinha todo carinhoso toda vez que me lembro que você se foi, essas coisas acalentam meu coração.
Parabéns Shirley, aonde você esteja.

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